Um Homem por Frei Betto
Houve um homem que se enchia de inefável gozo ao sentir-se abraçado pelo Sol e vigiado pela Lua, aos quais chamava de Irmão e de Irmã. Seus olhos reluziam perante a vastidão silenciosa das estrelas e o coração transbordava ao aspirar a fragrância das flores. Ao encontrar plantas e frutos, ajoelhava-se reverente como quem se curva junto a uma criança. Falava com a relva, conversava com as árvores, segredava às pedras, deixava-se acariciar pelo vento e parecia aplacar o vigor das chamas quando evocava seu parentesco cósmico com o fogo. Este homem nunca estudou astrofísica e jamais soube que nas águas dos rios lateja o mesmo oxigênio, expirado pelas estrelas, que flui em nossa corrente sanguínea, bombeando-nos vida. Porém, havia nele uma conatural empatia com toda a Criação. Apaixonado por Deus, sabia-se em comunhão com o Cosmo. Andarilho, o sabor do mel era, ao seu paladar, um dom tão precioso quanto a escuridão da noite para seus olhos e o lamento famélico dos lobos...